Língua PortuguesaConcordância verbal e nominalCOPESE/UFJF 2014
Concurso Público TAE – Campus Juiz de Fora – Edital
Questão de Língua Portuguesa
Texto IA-T1 Xifópagos 1. Chego ao jornal, e, no estacionamento, um motorista da casa me aborda: “Professor, como é que se diz quando irmãos nascem grudados?”. “Siameses”, digo eu. “É outra palavra, professor. Qual é mesmo?” E eu: “Xifópagos”. “Ah, então é isso?!” 2. Não resisti à tentação de pedir-lhe a razão da pergunta. O rapaz fez uma prova de português de um concurso para estudar confeitaria. Exigiram dos candidatos o conhecimento da importantíssima palavra “xifópago”, que, ao pé da letra, significa “consolidado, unido como espadas”. O elemento grego “xifo-” significa “espada”; o também grego “-pago” significa “unido”, “consolidado”. 3. Por que será que um examinador quer que futuros confeiteiros conheçam o termo “xifópago”? Deve ser porque há pães que saem do forno grudados, como irmãos siameses (ou “xifópagos”, antes que me esqueça). Quanta bobagem, meu Deus! 4. Um confeiteiro precisa entender ou escrever uma receita, o que não é pouco, não. É comum ficarmos sem saber como se preparam determinados alimentos porque não entendemos o que diz a mal redigida receita. 5. É, caro Rubem Braga. Em 1951, escreveste a memorável crônica “Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim”, em que falavas justamente da falta de sentido de perguntas como a feita ao nosso candidato a confeiteiro ou como as que citas já no título da crônica. Diz o grande Mestre: “Por que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para ‘pegar’ as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri – e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas”. 6. É, caro Rubem, passaram-se 53 anos, mas nesse tempo muitas questões semelhantes foram feitas em provas e concursos. Certa vez, num concurso para oficial de Justiça, pediu-se o feminino de “peixe-boi”. Claro! Todos sabemos que o peixe-boi é um malandro contumaz, incorrigível. Ao menor sinal da chegada do oficial de Justiça, dá no pé e larga a bomba na mão da dona peixa-vaca... 7. O feminino de “peixe-boi” não é “peixa-vaca”, não, caro leitor; é “peixe-mulher”, forma usada por pescadores brasileiros e angolanos, segundo o “Aulete”. Ouvi dizer que a genitália do peixe-mulher é semelhante à da mulher, mas não fui até o fim na pesquisa sobre a origem desse termo. 8. Quer outra barbaridade? Há 10 ou 15 anos dei carona a um policial rodoviário. Assim que entrou no carro e me reconheceu, foi logo perguntando: “Qual é o coletivo de cobras, professor?”. E eu: “Por que o senhor quer saber isso?”. Pela cara que fez, supus que ele estivesse pensando que eu o estava cozinhando, ganhando um tempo para pensar na resposta. E ele: “Fiz um concurso interno na polícia e...”. Não preciso concluir, preciso? 9. Sim, sim, policiais rodoviários que sabem o coletivo de cobras ganham tempo quando pedem socorro à central. Como sabemos, nossas rodovias são coalhadas de cobras, que põem em risco a segurança dos motoristas. Se o policial souber a palavra que nomeia isso, ganha tempo, já que é mais rápido dizer uma palavra do que uma locução. Há montes de cobras nas nossas rodovias, sim, caro leitor, mas elas são os nossos motoristas, de longe os mais irresponsáveis do planeta. 10. Perguntei ao policial se nas alternativas da questão havia “ofidiário” ou “serpentário”, o que o fez pular no banco do carro. “Então é isso?”, disse ele. “Não”, respondi. Só na cabeça de um examinador desocupado pode surgir a (falsa) ideia de que o coletivo de cobras seja “serpentário” ou “ofidiário”, palavras que designam o lugar em que se criam cobras para finalidades científicas. 11. Ainda há muitos examinadores que estão na idade da pedra. Saber uma língua é bem diferente de toda essa bobajada, caro leitor. É isso. CIPRO NETO, Pasquale. Xifópagos. Folha de São Paulo. Acesso em: 17 jan. 2014.
Avalie a veracidade das seguintes afirmações: I) A sequência “‘Professor, como é que se diz quando irmãos nascem grudados?’” (§ 1) exemplifica o emprego de discurso direto. II) Em “Não resisti à tentação de pedir-lhe a razão da pergunta” (§ 2), o pronome oblíquo átono está enclítico ao verbo, contribui para a coesão textual retomando a expressão “motorista da casa” e exerce a função sintática de complemento verbal. III) Em “Exigiram dos candidatos o conhecimento da importantíssima palavra ‘xifópago’” (§ 2), o cronista se vale de um dos mecanismos de indeterminação do sujeito em língua portuguesa. IV) No trecho “É comum ficarmos sem saber como se preparam determinados alimentos...” (§ 4), a concordância verbal nos induz ao entendimento de que, para o cronista, a partícula “se” funciona como índice de indeterminação do sujeito. V) No trecho “Como sabemos, nossas rodovias são coalhadas de cobras, que põem em risco a segurança dos motoristas” (§ 9), a vírgula antes do pronome relativo deixa clara a seguinte intenção comunicativa do autor: todas as cobras põem em risco a segurança dos motoristas. VI) No trecho “Assim que entrou no carro e me reconheceu, foi logo perguntando...” (§ 8), a conjunção temporal “assim que” pode ser substituída por “mal” sem prejuízo das regras ortográficas e do sentido original pretendido pelo cronista. Avaliadas as afirmações, aponte a alternativa CORRETA.
Mais questões de Concordância verbal e nominal
- FGVAssinale a opção que apresenta a frase em que houve erro de concordância da palavra sublinhada.
- FGVOs verbos na Língua de Sinais dividem-se em duas classes: os verbos sem concordância e os com concordância, sendo reconhecidas, entre os pesquisadores, as suas assimetrias morfoló…
- FGV“É inegável que a opção pelo emprego de animais no desenvolvimento de fármacos implica uma discussão ética. Mas a questão não é se o homem deve ou não recorrer a cobaias; cientist…
- FGVPara realizar uma concordância entre duas tangentes, em um projeto de rodovia, com deflexão a direita de 60º, o projetista utilizou uma curva circular simples com um raio de 360 m…
- FundatecTernus e Wollmann (2021) abordam em seus estudos a implementação da política de humanização nas UTIs e a relação dessa política com práticas interprofissionais. Em relação ao tema…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
