Questões de Língua Portuguesa · CVU/UEM

Língua PortuguesaOutros temasCVU/UEM 2023

UEM – Edital nº 151/ -PRH – Concurso Público (agentes universitários)

Questão de Língua Portuguesa

Universidade Estadual de Maringá Pró-reitoria de Recursos Humanos e Assuntos Comunitários Comissão Central do Vestibular Unificado No . DE ORDEM: No . DE INSCRIÇÃO: 1 Verifique se este caderno contém 40 questões. esferográfica de tinta azul ou preta. levá-lo consigo ao término da prova. ...........................................................................................................Corte na linha pontilhada. RASCUNHO PARA ANOTAÇÃO DAS RESPOSTAS – EDITAL N.º 151/2023-PRH – TÉCNICO ADMINISTRATIVO N.º DE ORDEM: GABARITO 1 TEXTO Euclides da Cunha: um grito corta o sertão denunciando o Brasil José de Nicola 1 Embora apresente uma visão de mundo 2 profundamente determinista, cientificista e naturalista, 3 Euclides da Cunha deve ser estudado como um pré- 4 modernista pela denúncia que faz da realidade 5 brasileira, trazendo à luz, pela primeira vez em nossas 6 letras, as verdadeiras condições de vida do Nordeste 7 brasileiro. Daí o caráter revolucionário de Os sertões, 8 como se pode ver na apresentação da obra pelo autor: 9 “Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o 10 olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais 11 expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil.” 12 Para tanto, trata em sua obra da Campanha de 13 Canudos, documento vivo dos contrastes entre o Brasil 14 que “vive parasitariamente à beira do Atlântico” e 15 aquele outro Brasil dos “extraordinários patrícios” do 16 sertão nordestino. Ao mesmo tempo, para ele, 17 Canudos é um símbolo dos erros cometidos pela 18 República, que avaliou de forma equivocada os 19 problemas nacionais – a revolta no sertão baiano foi 20 considerada um foco monarquista que colocava em 21 risco a vida republicana. 22 Em seus primeiros artigos sobre Canudos, 23 quando estava na redação de O Estado de S. Paulo, 24 Euclides da Cunha tachava a revolta liderada por 25 Antônio Conselheiro de “foco monarquista”, embora já 26 demonstrasse preocupação com as condições 27 subumanas do povo da região. Nessa época, sua 28 visão era influenciada pelas informações que recebia, 29 as quais primeiramente passavam por um “filtro” no 30 Rio de Janeiro. Só quando pisou o solo baiano, como 31 correspondente de guerra do jornal paulista, é que 32 compreendeu o drama de Canudos em toda a sua 33 extensão e o porquê daquela rebelião: percebeu que 34 não se tratava de uma luta por um sistema de governo, 35 mas sim contra uma estrutura que já se arrastava por 36 três séculos. Afirma o autor: “(...) Aquela campanha 37 lembra um refluxo para o passado. E foi, na 38 significação integral da palavra, um crime. 39 Denunciemo-lo.” 40 Este é um outro importante aspecto do livro – a 41 denúncia do extermínio de aproximadamente 25 mil 42 pessoas no interior baiano. Se a princípio pretendia 43 apenas fazer um relato da luta, Euclides da Cunha 44 acabou realizando um verdadeiro painel do sertão 45 nordestino. A obra é dividida em três partes: 46 A terra – Uma detalhada descrição da região, 47 respaldada em seus amplos conhecimentos das 48 Ciências Naturais: a geologia, o clima (há um capítulo 49 intitulado “Hipóteses sobre a gênese das secas”) e o 50 relevo. Essa parte é ilustrada por mapas do relevo e da 51 hidrografia feitos pelo próprio Euclides da Cunha. 52 O homem – Um elaborado trabalho sobre a 53 etnologia brasileira: a ação do meio na fase inicial da 54 formação das raças, a gênese dos mestiços; uma 55 brilhante análise de tipos distintos, como o gaúcho e o 56 jagunço; nesse cenário introduz a figura mística de 57 Antônio Conselheiro. Ao falar sobre o homem do 58 sertão, Euclides da Cunha criou um verdadeiro bordão: 59 “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. 60 A luta – Só nesta terceira parte da obra Euclides 61 relata o conflito; nas duas primeiras descreve o cenário 62 e os personagens. Dessa forma, justifica a luta. Seu 63 relato do dia a dia da guerra é a denúncia de um crime. 64 Assim, Euclides da Cunha vai colocar-nos diante 65 de um país diferente do que até então se costumava 66 retratar: a um Peri, a uma Iracema, a um tupi de “I- 67 Juca Pirama”, contrapõe o sertanejo, o jagunço, a 68 “sub-raça”. Sem dúvida, “o sertanejo é, antes de tudo, 69 um forte”, por conseguir sobreviver em condições tão 70 adversas. 71 72 Antônio Conselheiro – representante natural 73 do meio em que nasceu 74 A história de Antônio Conselheiro, ou melhor, 75 Antônio Vicente Mendes Maciel, começa no sertão 76 cearense, numa luta entre a rica família dos Araújo e a 77 família Maciel, de pequenos criadores de gado; esse 78 conflito durou um século, como tantos pelo interior 79 nordestino. Antônio Vicente nasceu em meio a essa 80 disputa, e em 1855 vamos encontrá-lo em 81 Quixeramobim, levando uma “vida corretíssima e 82 calma”. 83 “A partir de 1858 todos os seus atos denotam 84 uma transformação de caráter. Perde os hábitos 85 sedentários. Incompatibilidades de gênio com a 86 esposa ou, o que é mais verossímil, a péssima índole 87 desta, tornam instável a sua situação. Em poucos anos 88 vive em diversas vilas e povoados. Adota diversas 89 profissões.” Algum tempo depois, “foge-lhe a mulher, 90 raptada por um policial. Foi o desfecho. Fulminado de 91 vergonha, o infeliz procura o recesso dos sertões, 92 paragens desconhecidas, onde lhe não saibam o 93 nome. Desce para o sul do Ceará. E desaparece”. 94 Antônio Maciel só iria reaparecer dez anos 95 depois, já como o místico Antônio Conselheiro: “(...) 96 E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos 97 crescidos até aos ombros, barba inculta e longa, face 98 escaveirada, olhar fulgurante; monstruoso, dentro de 99 um hábito azul de brim americano; abordoado ao 100 clássico bastão em que se apoia o passo tardo dos 101 peregrinos...” 102 103 Por que não pregar contra a República? 104 (fragmento de Os sertões) 105 Pregava contra a República; é certo. 106 O antagonismo era inevitável. Era um derivativo 107 à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio 108 religioso. 109 Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o 110 jagunço é tão inapto para apreender a forma 111 republicana como a monárquico-constitucional. 112 Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É 113 espontaneamente adversário de ambas. Está na fase 114 evolutiva em que só é conceptível o império de um 115 chefe sacerdotal ou guerreiro. 116 Insistamos sobre esta verdade: a Guerra de 117 Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, 118 inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa 119 frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, 120 galvanizada por um doido. (...) 121 Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, 122 em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de 123 improviso, como herança inesperada, a República. 2 Técnico Administrativo GABARITO 1 124 Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos 125 ideais modernos, deixando na penumbra secular em 126 que jazem, no âmago do país, um terço da nossa 127 gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; 128 respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de 129 melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, 130 tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir 131 mais ligeiro com as exigências da nossa própria 132 nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso 133 modo de viver e daqueles rudes patrícios mais 134 estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da 135 Europa. Porque não no-los separa um mar, separam- 136 no-los três séculos... (...) 137 138 Canudos não se rendeu 139 (fragmento de Os sertões) 140 Fechemos este livro. 141 Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda 142 a história, resistiu até o esgotamento completo. 143 Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do 144 termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os 145 seus últimos defensores, que todos morreram. Eram 146 quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma 147 criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco 148 mil soldados. 149 Forremo-nos à tarefa de descrever os seus 150 últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta 151 página, imaginamo-la sempre profundamente 152 emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem 153 brilhos. 154 Vimos como quem vinga uma montanha 155 altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a 156 vertigem... 157 Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro 158 a narrativa de pormenores em que se amostrassem 159 mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios 160 lares, abraçadas aos filhos pequeninos? 161 E de que modo comentaríamos, com a só 162 fragilidade da palavra humana, o fato singular de não 163 aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros 164 válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele 165 Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante – e 166 a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre 167 esta fase obscura da nossa história? 168 Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o 169 destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, 170 cuidadosamente contadas. Texto adaptado de: NICOLA, J. de. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione, 1998. p. 252 a 256.

Ao mencionar “um outro importante aspecto do livro” (linha 40), o autor indica que já apresentou um primeiro aspecto do livro Os sertões. Assinale a alternativa que corresponde corretamente a esse primeiro aspecto.

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.