Questões de Língua Portuguesa · UFLA

Língua PortuguesaInterpretação de textosUFLA 2025

UFLA – Edital PROGEPE Nº (vários cargos níveis D e E)

Questão de Língua Portuguesa

P á g i n a 7 | 40 | EDITAL UFLA Nº 58/2025 INSTRUÇÕES: Leia o Texto 3 para responder às questões 8 a 10 Sociedade do espetáculo Maria Rita Kehl A frenética busca por “15 minutos de fama” nas plataformas digitais tornou-se uma perigosa armadilha, ainda mais cruel quando envolve crianças e adolescentes 1 Esta coluna toma emprestado o título de um dos livros mais conhecidos do filósofo e teórico 2 marxista francês Guy Debord (1931–1994). Passados mais de 30 anos de sua morte, o tema mostra- 3 se cada vez mais atual. Para o autor, a sociedade capitalista, em seu estágio avançado, transformou 4 as relações sociais em um grande espetáculo, no qual imagens e aparências se sobrepõem à vida real 5 e às experiências autênticas. Nesse contexto, os sujeitos buscam sempre apresentar-se em sua 6 melhor performance: felizes, endinheirados, desfrutando de viagens interessantes, festas incríveis 7 etc. 8 Os “15 minutos de fama” que todos deveriam experimentar uma vez na vida, na visão idílica de 9 Andy Warhol, tornaram-se insuficientes para quem vive neste mundo hiperconectado do século XXI. 10 É preciso exibir-se constantemente, sempre na melhor pose possível. Não basta estar, 11 eventualmente, feliz e desfrutando férias, jantando em um bistrô em Paris ou viajando em um 12 cruzeiro de luxo. É necessário que muita gente saiba disso – e, de preferência, inveje tal privilégio. O 13 espetáculo, escreve Debord, é uma relação social mediada por imagens que, por sua circulação, 14 acabam por “dominar a vida”. A qualidade da inserção social do sujeito passa a ser medida pelas 15 imagens que ele consegue produzir e divulgar. 16 Hoje, para o viajante, talvez importe menos o prazer de conhecer lugares novos do que o 17 gostinho de provocar inveja nos amigos. Daí a sanha de registrar, em fotografias e vídeos, momentos 18 supostamente maravilhosos e divulgá-los rapidamente nas redes sociais, ou enviá-los para 19 incontáveis grupos de WhatsApp. Debord não poderia prever o que viria a ser o poder dos 20 telefones celulares nas novas configurações da sociedade do espetáculo. Com um singelo aparelho 21 de comunicação em mãos, as pessoas criam autoficções que lhes conferem prestígio diante dos 22 outros. 23 Podemos supor, além disso, uma relação entre a predominância da imagem sobre o pensamento 24 e o declínio das narrativas – tão caras ao meu filósofo favorito, Walter Benjamin. Quem ainda quer 25 ouvir relatos interessantes, se estes podem ser substituídos por fotos e vídeos? Penso que o interesse 26 genuíno em adquirir novos conhecimentos ao viajar, ou mesmo em ampliar a compreensão do 27 mundo em que vivemos, tem sido facilmente substituído pelos efeitos fetichistas de divulgar, o 28 máximo possível, imagens de lugares paradisíacos, restaurantes caríssimos, festas de arromba. 29 Outro aspecto que Debord não teria como prever é que essa hiperexposição de cenas banais do 30 cotidiano se transformaria em um grande negócio, à medida que as plataformas digitais passaram a 31 monetizar as publicações dos usuários com maior alcance. Hoje, grande parte dos jovens nutre a 32 ilusão de alcançar fama e fortuna por meio desse espetáculo. E não tardaram a surgir empresários 33 inescrupulosos, dispostos a explorar a imagem de crianças e adolescentes nas redes sociais. Como 34 denunciou recentemente o youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, há de tudo um 35 pouco nesse terreno pantanoso: de programas de entrevistas conduzidos por versões mirins de 36 coaches de empreendedorismo a reality shows protagonizados por menores, nos quais eles P á g i n a 8 | 40 | EDITAL UFLA Nº 58/2025 37 participam de festas com bebidas alcoólicas, usam roupas provocativas e executam danças sensuais 38 – um prato cheio para os pedófilos e predadores sexuais. 39 Nesse cenário, alguns pais talvez não se deem conta de que, ao buscar seus 15 minutos de fama 40 e alguns likes, acabam expondo seus bebês fofinhos a adultos perversos que habitam os ambientes 41 digitais. Outros, como denunciou Felca, parecem não se importar em ganhar alguns trocados com 42 a exposição dos próprios filhos – mesmo em contextos que violam a dignidade de crianças e 43 adolescentes. 44 Observem o paradoxo: justamente ali, nas situações em que a vida parece, aos olhos dos outros, 45 mais vibrante e interessante, é onde ela acaba por ser mais aviltada. Sim, aviltada. Pois é quando o 46 contato com o mundo deixa de ser uma fonte de experiência e passa a ser apenas uma oportunidade 47 de exibicionismo. Perde-se, na acepção de Walter Benjamin, um elemento precioso em nossa tarefa 48 de criar sentidos para a vida. Perde-se a capacidade de transformar o fato em narrativa e a vivência 49 em experiência. O vazio que advém da sanha por vivências que não se convertem em experiência 50 talvez ajude a explicar a violência que constantemente ameaça o laço social. Fonte: publicado na edição n° 1377 de Carta Capital, em 03 de setembro de 2025.

Leia as proposições extraídas do texto: I. “Os “15 minutos de fama” que todos deveriam experimentar uma vez na vida, na visão idílica de Andy Warhol, tornaram-se insuficientes para quem vive neste mundo hiperconectado do século XXI” (linhas 8 e 9). II. “Observem o paradoxo: justamente ali, nas situações em que a vida parece, aos olhos dos outros, mais vibrante e interessante, é onde ela acaba por ser mais aviltada” (linhas 44 e 45). III. “O vazio que advém da sanha por vivências que não se convertem em experiência talvez ajude a explicar a violência que constantemente ameaça o laço social” (linhas 49 e 50). Todas as alternativas apresentam termos que substituem os vocábulos destacados, sem prejuízo de sentido, considerando o contexto em que aparecem, EXCETO:

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.