Questões de Língua Portuguesa · UFU

Língua PortuguesaOutros temasUFU 2021

UFU Concurso TA 157/

Questão de Língua Portuguesa

Página 6 O texto abaixo refere-se às questões 09 e 10. A primeira cena do filme "A filha perdida" de Maggie Gyllenhaal (2021) mostra Olivia Colman no papel de Leda indo passar férias na costa grega, deleitando-se com a brisa marinha e com a paisagem. Nada que lembre uma mulher de meia-idade amargurada e solitária, como alguns sugeriram equivocadamente. Trata-se de uma professora universitária, cujas filhas adultas foram morar com o ex-marido, no Canadá. É nesse cenário idílico, no qual fica evidente o prazer que a protagonista extrai de suas leituras, do mar e do sol, que se dá o encontro disruptivo com outra família. Aquela que no livro homônimo de Elena Ferrante se parece desconfortavelmente com a família na qual Leda nasceu. A protagonista passa a observar atentamente a relação de Nina e Elena, mãe e filha pequena, no meio daquela família ruidosa. Num dado momento, a criança perde sua boneca, que Leda esconde ao invés de devolver. A reação inconsolável da menina revela que se trata daquilo que Winnicott chamou de objeto transicional (imortalizado no inseparável cobertor de Linus, amigo do Charlie Brown). Objeto que para a criança está profundamente relacionado com o processo de separação da mãe (ou cuidador principal) e que será uma extensão do corpo desse cuidador. Ao se envolver na intensa relação entre mãe e filha, Leda se vê às voltas com o fato de que, quando suas filhas eram pequenas, ela desapareceu por três anos. Quando Nina lhe pergunta como foi tê-las abandonado, a protagonista responde que foi maravilhoso, com uma expressão tão ambígua que já valeria o Oscar a Colman. Realizar o desejo pode ser desesperadamente maravilhoso, afinal, não se deve confundir desejo com vontade. A vontade é consciente e costuma responder aos imperativos sociais aos quais nos alienamos. Já o desejo se impõe, muitas vezes à revelia da sensatez. Podemos realizá-los ou não — aqui a ética é o nome do jogo —, e sofreremos as consequências seja qual for a escolha. [...] A boneca que Leda ganhou da mãe quando criança, ao contrário, foi meticulosamente guardada para as filhas. Acabou destruída num rompante de ódio diante de sua maternidade frustrante. O horror às escolhas da mãe e a esperança de fazer "tudo diferente com as filhas" impediu que ela descobrisse formas mais desejantes de lidar com sua maternidade. Filme e livro exploram a maternidade em dois níveis. Naquilo que ela tem de inevitável: a impossibilidade de nos tornarmos bonecas idealizadas de nossas mães e tampouco de termos filhas-bonecas. Nesse ponto, as separações são tão dolorosas, quanto necessárias. Em outro nível, os discursos atuais sobre a maternidade que continuam a ignorar anseios femininos — de equidade, sexo, carreira e liberdade — se mostram insustentáveis e tendem a respostas disruptivas. Diante de tanto abandono, não são poucas as mães desejosas de "sair pra comprar cigarros". IACONELE, Vera. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2022/01/a-filha- perdida.shtml>. Acesso em: 24 jan. 2022. (Fragmento)

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.