Questões de Língua Portuguesa · Fundatec

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Questão de Língua Portuguesa

A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem 01 Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em 02 um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se 03 recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As 04 palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de 05 um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre 06 (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra 07 “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a 08 palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos. 09 Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com 10 essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se 11 isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de 12 todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não 13 tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale 14 para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. 15 Insuportável. 16 A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar 17 perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só 18 inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o 19 entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha 20 entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”. 21 Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço 22 interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, 23 embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse 24 escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer 25 morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que 26 aprendamos nada que valha a pena. 27 A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada 28 de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra 29 numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que ............... a minha dor. Cada um sabe 30 do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a ............... de que a minha escolha 31 seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer 32 será minha última experiência vivida. Acharia ............... perder esse derradeiro conhecimento sobre a 33 existência humana. Minha última chance de ser curiosa. 34 Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o 35 contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a 36 morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou 37 a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa 38 sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os 39 eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem. 40 Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu 41 não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam 42 bem ................ São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras 43 que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a 44 sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma. 45 Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra 46 com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra 47 que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho ............... memória 48 acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. 49 Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se 50 dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre- 51 se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de 52 ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para 53 andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as 54 recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver. Velho é uma 55 conquista. Idoso é uma rendição. 56 Envelhecer o espírito é engrandecê-lo, alargá-lo com experiências, apalpar o tamanho cada vez maior 57 do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente 58 para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais Execução: Fundatec 10 CE_20 _V3_19/8/201410:06:11 59 superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem. 60 Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não 61 deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que 62 temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, 63 mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo as palavras “idoso”, “terceira idade” e afins. 64 Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência. 65 Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o 66 reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, 67 para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha 68 travessia com a graça de um espanto. FONTE: Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html -Texto

Assinale a alternativa que preenche corretamente as linhas pontilhadas do texto (linhas 29, 30, 32, 42 e 47), respectivamente.

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