Raciocínio LógicoEquivalências e negaçõesCebraspe 2014
FUB
Questão de Raciocínio Lógico
Texto para os itens de 51 a 60 O território do escritor 1 A língua é o espaço que forma o escritor. Tentar compreendê-la (essa tarefa impossível) será, portanto, um bom caminho para compreender a atividade da literatura. A questão 4 é que há tantas línguas, e isso no universo do mesmo idioma, quanto há escritores. Quando falo de língua, não me refiro apenas ao simples depósito de palavras que circulam em uma 7 comunidade, nem a um sistema gramatical normativo às vezes mais, às vezes menos estável numa sociedade, numa estação do ano, num sexo, numa região, numa família ou em parte dela, 10 num lugarejo, numa classe social, naquela rua, num determinado dia, num livro e quase nunca num país inteiro. A língua em que circula o escritor jamais é uma 13 entidade unitária. Não pode ser, em caso algum, uma ordem unida. Porque a matéria da literatura não é um sistema abstrato de regras e relações, uma análise combinatória de fonemas ou 16 um conjunto de universais semânticos como tem sido a língua para uma corrente considerável dos cientistas da língua. Justamente por serem abstratos, justamente por serem apenas 19 fonemas e justamente por serem universais, esses elementos primeiros são desprovidos de significado: servindo a todos, não servem a ninguém. De fato, não chegam a se constituir em 22 “língua”, uma vez que deles se suprimiu a outra parte indispensável da palavra: o falante. O falante, o homem que tem a palavra, é, portanto, o 25 verdadeiro território do escritor: a língua real é ele. E em que sentido ele pode ser considerado uma entidade universal? Isso interessa, porque, no exato momento em que uma palavra 28 ganha vida, na voz do falante, ela ganha também o seu limite: o pé no chão, que não é qualquer chão, o espaço, que é esse espaço, e não outro, o ar que se respira, o tempo, o dia, a hora, 31 toda a soma das intenções muito específicas convertidas no impulso da palavra; e, é claro, a ninguém interessa o que a palavra quer dizer de velha (isso até o dicionário sabe), mas o 34 que ela quer dizer de nova, isto é, o que é novo e surpreendente no que se diz. Esse espetáculo das vozes que falam sem parar no mundo em torno, ou nesse mundo em torno, nesse exato momento, é a vida indispensável de quem escreve. É nessa 37 diversidade imensa e imediata que se move quem escreve, o ouvido atento. 40 Mas há ainda um terceiro complicador na palavra, além da sua matéria mesma e além daquele que fala. Porque, se desdobramos a palavra, descobrimos que quem lhe dá vida não 43 é exatamente o falante. Ninguém no mundo fala sozinho. Assim, surge outro território essencial de quem escreve: o território de quem ouve, a força da linguagem alheia, dos 46 outros. Num sentido duplo, interessa tanto o que os outros nos dizem (e somos nós que damos vida a essas palavras que vêm de lá, antes mesmo de se tornarem voz), quanto o que nós 49 dizemos (e são eles, os outros, que dão vida ao que dizemos, antes mesmo de a gente abrir a boca). Para a palavra e para tudo que significa, os outros não são uma escolha, mas parte 52 inseparável. Mesmo solitários, de olhos e ouvidos fechados, isolados na mais remota ilha do mais remoto oceano, no fundo de uma caverna escura e silenciosa, mesmo lá, ouviríamos, em 55 cada palavra apenas sonhada, a gritaria interminável dos que nos ouvem. C r i s t ó v ã o T e z z a . I n t e r n e t : <http://cristovaotezza.com.br> (com adaptações).
No que se refere aos diversos aspectos do texto, julgue os itens seguintes. O texto apresenta um problema estrutural consistente na contradição entre as pessoas do discurso, observada no emprego da primeira pessoa do singular no primeiro parágrafo (“falo”, “me refiro”) e da primeira pessoa do plural (“ouviríamos”, “nos ouvem”) ao final, o que prejudica a defesa de suas ideias.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

