Língua PortuguesaInterpretação de textosIBADE 2026
Concurso Público - Nº 013/ CONSELHO REGIONAL DE ODONTOLOGIA DO MARANHÃO
Questão de Língua Portuguesa
S01 - ADVOGADO Turno: Manhã Nível: Superior Duração da prova: 4h É obrigatório marcar o tipo de prova no Cartão de Respostas para que sua prova seja corrigida. A não marcação resultará na não leitura do cartão, o que implicará na eliminação automática do(a) candidato(a) do Concurso Público. “Quanto maiores são as dificuldades a vencer, maior será a satisfação.” (Cícero) Você recebeu do Fiscal de Sala os seguintes materiais: Por motivo de segurança: prova. banheiros e/ou bebedouros. desidentificado. Não se esqueça dos seus pertences. Resposta, devendo assinar a Ata de Fiscalização. Coordenador Local. ATENÇÃO: em ambos. Leia o texto e responda às questões de 01 a 10. A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento” Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some. Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé. A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço. — Boa tarde. Em que posso ajudar? — Quero devolver. Está com defeito. Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou: — Tem nota? A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade. Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia: — Então... pela nossa política, a troca é com a assistência. Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais. — Mas eu quero devolver. — Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso. — Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo. — Entendo. Mas o sistema entende diferente. Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”. Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha: — E qual é o procedimento? Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”. — Você abre um chamado. — Eu abro agora? — Você abre pelo site. — E depois? — Depois aguarda. — Aguarda quanto? Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita. — Até quinze dias úteis. Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio. Eu tentei outra rota. ADVOGADO IBADE — Não dá para resolver aqui? — Só com laudo. Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”. — E se o laudo disser que é defeito? — Se for defeito, a assistência avalia. — E se não for defeito? — Se não for defeito, pode haver cobrança. Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia. Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo. A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza: — Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular. Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência. Quando finalmente consegui, o formulário perguntou: “Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos. Enviei. A atendente olhou e disse: — Pronto. Agora é só aguardar. — E o que eu faço com o fone? — Você guarda. Não pode usar. Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência. Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo. Fonte: Banca Examinadora
Marque a alternativa que transpõe “Você abre um chamado.” para discurso indireto, iniciando por “A atendente disse que…”, mantendo sentido de ordem, sem usar “para” e sem empregar “dever/precisar”.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

