Língua PortuguesaInterpretação de textosCebraspe 2026
CGE AL
Questão de Língua Portuguesa
Você sabe melhor do que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles. Se descrevo Olívia, cidade rica de mercadorias e de lucros, o único modo de representar a sua prosperidade é falar dos palácios de filigranas com almofadas franjadas nos parapeitos dos bífores; uma girândola d’água num pátio protegido por uma grade rega o gramado em que um pavão branco abre a cauda em leque. Mas, a partir desse discurso, é fácil compreender que Olívia é envolta por uma nuvem de fuligem e gordura que gruda na parede das casas; que, na aglomeração das ruas, os guinchos manobram comprimindo os pedestres contra os muros. Se devo descrever a operosidade dos habitantes, falarei das selarias com cheiro de couro, das mulheres que tagarelam enquanto entrelaçam tapetes de ráfia, dos canais suspensos cujas cascatas movem as pás dos moinhos. Mas a imagem que essas palavras evocam na sua iluminada consciência é o movimento que leva o mandril até os dentes da engrenagem repetido por milhares de mãos milhares de vezes nos tempos previstos para cada turno. Se devo explicar como o espírito de Olívia tende para uma vida livre e um alto grau de civilização, falarei das mulheres que navegam de noite cantando em canoas iluminadas entre as margens de um estuário verde. Mas isso serve apenas para recordar que, nos subúrbios em que homens e mulheres desembarcam, todas as noites, como fileiras de sonâmbulos, sempre existe quem começa a gargalhar na escuridão, dá vazão às piadas e aos sarcasmos. Pode ser que isto você não saiba: que, para falar de Olívia, eu não poderia fazer outro discurso. Se, de fato, existisse uma Olívia de bífores e pavões, de seleiros e tecelãs de tapetes e de canoas e estuários, seria um mero buraco negro de moscas, e, para descrevê-la, eu teria de utilizar as metáforas da fuligem, dos chiados de rodas, dos movimentos repetidos, dos sarcasmos. A mentira não está no discurso, mas nas coisas. Italo Calvino. As cidades e os símbolos (5). In: As cidades invisíveis. Tradução: Diogo Mainardi. Coleção Biblioteca Folha. São Paulo: Publifolha, 2003 (com adaptações). Considerando as ideias e aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue os itens que se seguem. Em "sempre existe quem começa a gargalhar na escuridão" (terceiro parágrafo), o termo "quem", além de integrar o sujeito sintático da oração constituída pela forma verbal "existe", exerce a função de sujeito da oração formada por "começa".
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

