Questões de Língua Portuguesa · COPESE/UFJF

Língua PortuguesaInterpretação de textosCOPESE/UFJF 2014

Concurso Público TAE – Campus Governador Valadares – Edital

Questão de Língua Portuguesa

Texto IA-T1 A lenta agonia dos jornais de província. 1. Se até agora, nas grandes metrópoles do país, a televisão não conseguiu desbancar a imprensa no que ela tem de mais inalienável, que é a informação, o mesmo não se verifica, lamentavelmente, em muitas capitais de Estados, onde jornais outrora tão vibrantes começam a ensarilhar as armas diante da concorrência desigual. 2. Tenho grande ternura pelos jornais de província, modestos porém ousados, raquíticos mas atrevidos. Foi neles que me iniciei e com eles convivi tempo bastante para aprender lições de humildade e de bravura. Se a folha de pagamento era mínima, a folha de serviços era grande. Dos serenos informativos, que procuravam situar-se sempre em posição conciliatória, aos panfletos incendiários que não raro atraíam balas de qualquer calibre para seus temerários redatores, a imprensa do interior, muito mais que a dos grandes centros, sempre circunscreveu-se à atividade política. Não a política esmaltada de urbanidade, dos cochichos ao pé do ouvido ou das teorizações inócuas que preenchem o vazio de doutrinas inconsistentes. Mas a política mais primitiva, em que adversário é inimigo e reduto eleitoral é o lugar onde não há fiscalização do partido oponente. 3. Hoje esse passado recente parece ter-se incorporado ao fabulário regional. Antes da televisão, o avião começou a minar as bases de resistência da imprensa provinciana. Com a presença diária de jornais do Rio e São Paulo, as folhas dos Estados menos dotados começaram a minguar. Isso para não falar nas alterações de ordem política e social que modificaram hábitos enraizados e, em certos casos, chegaram mesmo a erradicar vícios imemoriais, como a fraude eleitoral despudorada, o regime institucional de pistolão para preenchimento de cargos públicos e a lei do trabuco para quem estivesse do lado oposto. 4. Os jornais que refletiam essa realidade – difícil de ser aceita em círculos menos comprometidos com a caverna, mas nem por isso menos verdadeira – perderam então muito do seu encanto. A partir do momento em que o imprevisto, o suspense, o inusitado, deixaram de constituir matéria-prima de sua mercadoria de consumo imediato, restou-lhes o consolo de reproduzir, com atraso de 24 horas, o noticiário importado das metrópoles por via aérea. 5. A televisão acabou de liquidar com essa imprensa heroica que ainda subsiste em raros casos recorrendo à ilusão de iludir-se com artifícios como o ofessete que só causa boa impressão mesmo no papel linha d’água. E é assim que o espaço antes destinado aos editoriais, sueltos, tópicos e até mesmo às notícias locais passou a ser substituído pelas fotos de cortes avantajados e posters extemporâneos. Com a inversão de valores e a reversão da expectativa, os critérios do supérfluo prevaleceram sobre os do essencial. 6. As transmissões diretas, via satélite, se serviram para pôr o homem de cidades distantes em dia com tudo quanto se decide na aldeia global, acarretam a desvantagem de desinteressá-lo das coisas de sua própria terra. Alguém já aventou a hipótese de que, em futuro próximo, desaparecerão para sempre as tipicidades dos sotaques, o que, em maior escala, levaria até à descaracterização das culturas regionais, com danos irreversíveis e prejuízos irreparáveis para a memória nacional. 7. Não há dúvida de que é muito confortável desembarcar em Maceió e retomar, com um alagoano, apanhado ao acaso, o fio de uma conversa iniciada no Rio, sem solução de continuidade, porque hoje todo o mundo está a par de tudo que acontece, ao mesmo tempo, em qualquer parte. Mas como confrange, quando acaso se volta ao berço, tentar uma cavalgada pelo passado e constatar que já agora ninguém mais tem tempo para isso porque quem não está interessado no desfecho de uma novela empenha-se a fundo em vislumbrar uma saída para Angola ou uma solução para as escaramuças frequentes entre Pequim e Moscou. 8. Aqui, entre nós, eu acho que estão botando progresso demais no ventilador. O que me deixa estarrecido e sorumbático não é, com certeza, o remédio encontrado para curar o insulamento. Na adolescência eu já me queixava muito disso, ainda mais que conheço o problema de perto porque nasci numa ilha. O que me apavora é a dosagem. Pela madrugada! Não acabem de vez com o meu passado, não arranquem assim minhas raízes. BURNETT, Lago. A lenta agonia dos jornais de província. In: A língua envergonhada. 2. ed. Rio de Janeiro: Cena Produtores de Arte, 1985. p. 89-90.

Atentando para as afirmações a seguir, aponte aquela que NÃO se confirma pela leitura do texto.

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